Há 128 anos, Vasco nasceu de frente para o mar

Memória Vascaína @HenriqueHuebner

Em 21 de agosto de 1898, entre 14h30 e 15h45, no salão do sobrado da Rua da Saúde nº 293, foi instalado o Club de Regatas Vasco da Gama. A Ata da Assembleia de Instalação registra com precisão o local. Os fundadores — jovens comerciários entusiastas do remo, entre eles Henrique M. Ferreira Monteiro, Luiz Antonio Rodrigues, José Alexandre d’Avellar Rodrigues, Manoel Teixeira de Sousa Junior e José Lopes de Freitas (o Zé da Praia) — deram vida ao clube num ponto estratégico da região portuária: defronte à antiga Praça da Harmonia, colado ao Cais do Valongo e praticamente de frente para o mar.

O prédio era um sobrado térreo ocupado pelo comércio de café moído da firma Pires & Pinheiro (Manoel Pires Coelho e Antonio Martins Pinheiro), com capital de 8:000$, conforme registro na Junta Comercial publicado no Diário Oficial de 11 de agosto de 1897. O proprietário do imóvel, Manoel Ernestino da Costa, cedeu o salão térreo para a assembleia. O local ficava ao lado do Moinho Fluminense, que possuía atracadouro interno para descarregar trigo importado. À esquerda nas fotografias da época aparece o moinho com seu cais; ao fundo, a Rua da Saúde com o sobrado da fundação; à direita, o Morro da Saúde. O Vasco nasceu, portanto, no coração da zona portuária.

As reuniões preliminares começaram em janeiro de 1898 no sobrado de Henrique Ferreira Monteiro, na Rua Theophilo Ottoni nº 80 (ao lado esquerdo do atual nº 90). A instalação oficial, porém, ocorreu na Rua da Saúde, 293, conforme registrado na Ata.

A posse da primeira diretoria eleita ocorreu na semana seguinte, em 28 de agosto de 1898, nos salões da Sociedade Dançante Estudantina Arcas, na Rua São Pedro nº 152 (defronte à então Praça General Osório, antigo Largo do Capim), com cerca de cem novos sócios presentes. Há menção a outra possível localização — a Sociedade Arcádia Dramática Esther de Carvalho —, mas o endereço coincide com o da Estudantina Arcas, conforme anúncios da Gazeta de Notícias e do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro.

O endereço da fundação sofreu alterações ao longo do tempo. Antes de 1876 o local era identificado como Praça da Harmonia nº 21. Após a supressão desse endereço, passou a ser Rua da Saúde nº 285 e, em seguida, nº 293. Em 1907, pelo Decreto nº 664 da Prefeitura do Distrito Federal, no contexto do “Bota Abaixo”, da abertura da Avenida Central e do início da construção do Cais do Porto, a numeração foi revista e o sobrado tornou-se o nº 345. Em 24 de junho de 1922 a Rua da Saúde foi rebatizada Rua Sacadura Cabral. O prédio permanece no mesmo quarteirão até hoje. Comparações entre fotografias de Augusto Malta (1905 e 1908) e imagens contemporâneas mostram que o conjunto edilício pouco se modificou em mais de cem anos.

Por quase um ano o Vasco foi um clube da região portuária. Só depois se transferiu para o Passeio Público. A geografia original, no entanto, nunca deixou de ser significativa. O clube nasceu olhando o mar, entre o Cais do Valongo e o atracadouro do Moinho Fluminense. Essa condição de nascimento — de frente para a baía — não é detalhe secundário: é a marca de origem de um clube de regatas.

Quarenta e oito anos depois, em 1946, um dos próprios fundadores, José Lopes de Freitas (José da Praia), deixou registrado o sentimento que já então unia os vascaínos:

“Tudo que é Vasco é dos vascaínos! E bem razão tem eles quando cheios de orgulho dizem: ‘O nosso Vasco’. É este Vasco que todo o Brasil esportivo festeja hoje, do seu quadragésimo oitavo aniversário. É este Vasco cuja história precisa ser escrita porque a sua vida é uma grande lição para a vida esportiva nacional.”

Cento e vinte e oito anos depois, o número mudou, o nome da rua mudou e o aterro transformou a orla. O lugar, porém, ainda está lá. E a origem permanece: o nosso Vasco nasceu de frente para o mar.

(Consolidação dos textos publicados em Memória Vascaína: “Rua da Saúde, n.º 293 – O Vasco nasceu para o mar”, “A Fundação do Vasco – Cais do Valongo” e “O Nosso Vasco”)

Fonte: X Memória Vascaína